quarta-feira, 24 de junho de 2009

Por onde anda meu diploma?

Em 1975, quando prestei vestibular para o curso de jornalismo, da Escola de Comunicação e Artes, na Universidade de São Paulo, o diploma não era obrigatório. Nem pensei no assunto, quando fiz a matrícula, apenas para a turma da tarde - não queria acordar cedo, nem atrasar a formatura, pois o curso noturno tinha defasagem de um semestre, fruto da primeira greve de estudantes depois dos decretos que autorizaram a barbárie contra as lideranças estudantis.
Não desisti do curso, em 1977 por dois motivos: por precisar do diploma para exercer a profissão e por saber que, filha de pequenos comerciantes de Santos, não teria outra forma de ingressar no jornalismo.
As crises sempre são boas, quando conseguimos rir delas. e nelas.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

No caminho do redescobrimento

Márcia Marques1 e

Nos dias 2 e 3 de setembro de 2009 ocorreu na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal, o Brasil Portugal - I Colóquio de Ciências da Comunicação. Realizado como pré-congresso do XXXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, o evento foi coordenado pelos professores António Fidalgo (Universidade da Beira Interior), Eduardo Meditsch (Universidade Federal de Santa Catarina) e Adriano Gomes (UFRN). Resultado de um esforço de aproximação das entidades Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação - Intercom e Sociedade Portuguesa de Ciências da Comunicação – Sopcom, o colóquio reuniu investigadores científicos de instituições de ensino dos dois países que apresentaram suas pesquisas recentes.

Ao todo, foram selecionados para exposição no Colóquio Bi-nacional 30 artigos científicos, para apresentação em duas manhãs e duas tardes. O Colóquio padeceu do mesmo mal do congresso da Intercom: gigantismo de números. Houve seleção de muitos trabalhos, alguns irrelevantes. Pouco tempo para exposição e para reflexão sobre aqueles temas que foram realmente bem trabalhados. Generosa a presença de pesquisadores de todos os quilates: graduandos, mestrandos, mestres, doutorandos, doutores e pós-doutores. Este início de diálogo entre brasileiros e portugueses mostrou que os cinco séculos de convivência histórica refletem-se no olhar do pesquisador, ora pela incompreensão, ora pela busca do entendimento.

No primeiro caso, situa-se a pesquisa sobre as notícias do jornal O Público, de Lisboa, com brasileiros. O artigo apresentado ao Colóquio é parte da monografia de Juliana Bandeira, orientada pela Profa. Dra. Olga Maria Tavares da Silva Correia, na Universidade Federal da Paraíba. Ela concluiu que as matérias publicadas no jornal português apresentam os brasileiros pelos estereótipos de samba, carnaval e futebol. No contraponto, o trabalho do doutorando Tiago Lemos Monteiro, da Universidade Federal Fluminense sobre como os brasileiros não acompanham a música portuguesa atual, uma busca de compreensão do que nos separa, especialmente os jovens brasileiros. Também foi de incompreensão a intervenção de um participante, ao final do encontro, sobre o que considerou o problema fundamental do Colóquio: brasileiros e portugueses não falam a mesma língua.

O olhar do professor Antônio Hohlfeldt sobre a "imprensa das colônias de expressão portuguesa", a partir de uma primeira leitura dos originais depositados na Biblioteca Pública Municipal do Porto, buscou na história, o que une e o que separa os jornalismos de língua portuguesa, de Portugal e das colônias - Brasil, Angola, Moçambique, Goa e Cabo Verde. A análise destes documentos procura constituir o contexto histórico em que se deu a introdução dos prelos e, logo depois, da imprensa nessa colônias. Também fixa e apresenta dez características gerais para essa produção jornalística dos séculos XIX e XX.

Goa, que com Damão e Diu constituía a Índia Portuguesa, foi a mais avançada, com a imprensa iniciada ainda em 1556. Um traço interessante, apontado pelo pesquisador, e novo presidente da Intercom, é a troca de informações entre os periódicos, que anunciam o nascimento e morte de jornais das colônias. Também é interessante a sistemática de envio de jornais aos leitores, imediatamente tornados "assinantes" e obrigados ao pagamento da assinatura se não devolvessem o exemplar que receberam sem pedir.

Outra marca do Colóquio é que do lado brasileiro a maior parte dos trabalhos tentou lançar olhar sobre aspectos da comunicação que relacionam os dois países. Já do lado lusitano, a maioria ampla das investigações apresentadas abrangeu o espaço midiático fisicamente localizado em Portugal e de conteúdo focado na cultura portuguesa. Entre os trabalhos apresentados por investigadores portugueses sobressaíram-se quatro. Um deles é o de Joaquim Martins Fidalgo, da Universidade do Minho, sobre jornalistas e saberes profissionais que revisitou a questão epistemológica da oposição entre teoria e prática.

Outro trabalho que chamou a atenção, também tratando de jornalismo, foi o de Carla Batista, da Universidade Nova de Lisboa, sobre as mudanças na sociologia do jornalismo durante a década de 1960 em Portugal, com a intensificação da profissionalização da atividade. Uma investigação sobre as chamadas novas tecnologias e seu caráter de inclusão, foi apresentada por Isabel Veloso, da Universidade de Aveiro, que detalhou efeitos do projeto do sítio de internet Largo Novo, dedicado aos cidadãos séniores, ou, como se diz no Brasil, à terceira idade. Também se destacou o estudo sobre a ficção televisiva e entretenimento, de Isabel Ferin Cunha, da Universidade de Coimbra. Entre outras coisas, ela mostrou como as novelas brasileiras vêm perdendo espaço, ano após ano, para as produções próprias portuguesas.

Entre os trabalhos que reuniram pesquisadores dos dois países destaca-se o artigo produzido pelos doutores Antônio Teixeira de Barros (CEFOR-Câmara dos Deputados do Brasil) e Jorge Pedro Sousa (Universidade Fernando Pessoa). Eles analisaram a influência da chamada Escola de Chicago nas investigações sobre jornalismo e ambiente efetuadas nas duas nações.
Lusofonia no Intercom

O marco dos 200 anos do surgimento da imprensa no Brasil, acabou por estender o diálogo luso-brasileiro aos outros espaços do Intercom. Na sessão comemorativa "olhares sobre jornalismo e história" no VIII
Encontro dos Núcleos de Pesquisa em Comunicação, Jorge Pedro Souza, da Universidade Fernando Pessoa apresentou um trabalho sobre o advento da crítica ao jornalismo em Portugal, pela verve do padre José Agostinho de Macedo, nascido em 1761 e falecido em 1831, um "desbragado e truculento polemista português que se distinguiu, entre outros aspectos, pela crítica feroz que, após a Revolução Liberal de 1820, fez ao jornalismo panfletário e “partidário”, à proliferação de periódicos e à liberdade de imprensa", como justificou. Souza considera o autor um dos pais portugueses da Teoria Crítica do jornalismo, por identificar os problemas que levaram o jornalismo panfletário artesanal a ser substituído pelo jornalismo informativo industrial, ainda no século XIX.

Também neste núcleo, Antonio Hohlfeldt apresentou o artigo em que faz uma leitura comparada dos primeiros jornais brasileiros: o Correio Braziliense, produzido em Londres por Hipólito da Costa, e a Gazeta do Rio de Janeiro, financiada pela corte. "A matéria-prima do jornal era fundamentalmente extraída de outro jornal, a “Gazeta de Lisboa”, além de algumas folhas londrinas" revela o pesquisador sobre o primeiro jornal impresso em território brasileiro.

(reprodução de artigo escrito para o sítio da embaixada de Portugal no Brasil)


1 Jornalista, professora da Universidade de Brasília (UnB), Mestra em Comunicação pela UnB

2 Jornalista, mestrando em Comunicação pela UnB